Que mulher nunca pensou em viver um romance avassalador? A indústria do cinema promove, a todo o momento, a ideia de que nós, mulheres, teremos uma vida melhor com um homem do lado. Mas, em alguns casos, o roteiro extrapola e a história passa a ser um desserviço. Como é o caso do filme polonês “365 dias” que tem causado alvoroço e já é o primeiro lugar na Netflix dos filmes mais vistos no Brasil. O longa conta a história de Laura Biel que é sequestrada por Massimo Torricelli, em uma viagem a Sicília. Massimo é chefão da máfia siciliana, a sequestra e dá 365 dias para que ela se apaixone por ele.

A mestre em Psicologia e especialista da Plataforma Sexo sem Dúvida, Carolina Freitas, explica que o filme retrata a romantização de violências – sequestro, relacionamento abusivo, machismo, fragilização e objetificação da mulher. “A aceitação da ideia do sequestro e de comportamentos abusivos dali, podem normalizar situações de vulnerabilidade, nas quais a mulher passa a se sentir a responsável pelo abuso, inclusive. Ou começa a chamar de amor o que é medo e controle. Ciúmes não é prova de amor e sim de insegurança”.

Ela explica porque filmes que promovem o relacionamento abusivo fazem tanto sucesso. “Relacionamentos abusivos são romanceados até hoje. Poucas mulheres conhecem as definições de relacionamento abusivo e com isso não sabem que estão em um. Acreditam que aquilo é amor, cuidado e paixão. Quando na verdade é poder, controle e violência”.

O fato de muitas mulheres quererem viver romances semelhantes como o de “365 dias” tem uma explicação: esses filmes são versões adultas de contos de fadas. “Se as mulheres continuarem aprendendo que tem de ter alguém para serem felizes, estarão sempre na posição de vulnerabilidade e toparão qualquer relacionamento para simplesmente ter alguém. E se recheado de cenas eróticas (que saem do ambiente pornográfico “proibido” para mulheres), o sonho de ter algo parecido aumenta. Alguém para dar a ela prazer, como se não fosse responsabilidade da mulher o prazer dela”.

A especialista acredita, inclusive, que boa parte do alvoroço causado pelo filme seja por conta das cenas de sexo que são reais e explícitas, mas que a sociedade precisa discutir esses temas que envolvem poder e sexo. “O bom deste filme é podermos falar sobre as relações abusivas e levar reflexões às mulheres”.

Isso auxilia para que elas possam, inclusive, diferenciar o que é um bom sexo, uma boa cena de sexo e o que é violência e abuso. “Ali para algumas será bem erótico enquanto para outras gatilho. A consequência negativa que mais me preocupa é ser gatilho para as mulheres que já passaram por situações de abuso ali retratadas e não tiveram o suporte emocional necessário. Assim como já acontece em filmes que têm cenas de suicídio. Outro ponto interessante é mostrar o serviço de onde mulher pode procurar por ajuda, no caso, o Disque 180.”